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Futebol / A Primeira Liga e a realidade dos números

A Primeira Liga e a realidade dos números

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Percebemos que estamos quase no início da temporada quando, nas bancas de jornais, os três diários desportivos (entre outros) lançam os seus guias sobre a época futebolística que se adivinha. A partir da leitura de um desses guias, podemos concluir que, tendo em conta os orçamentos apresentados pelos clubes da Primeira Liga, não há um, mas sim quatro campeonatos a serem disputados em simultâneo: um para o título, outro para a terceira vaga da Liga dos Campeões, um terceiro da Liga Europa e a habitual luta pela manutenção.

É verdade que o sucesso futebolísticos não se mede necessariamente pelo dinheiro investido; contudo, por regra, é isso mesmo que acontece, como nos mostram o Real Madrid e o Barcelona todos os anos. O dinheiro pode por vezes operar milagres como aconteceu em Manchester, com o City ou, já antes, com o Chelsea. É por isso estranho que em Portugal se dê pouca atenção aos números, preferindo  a comunicação social ouvir da boca de dirigentes e treinadores se o clube é candidato ao título, à Europa ou à manutenção, raramente os confrontando com a realidade dos números.

Apesar de se manter o discurso dos três ou mesmo, nos últimos tempos, dos quatro grandes, a verdade é que o orçamento do Porto equivale aos orçamentos do Benfica, do Sporting (36 milhões) e do Braga (15 milhões) juntos. Já aqui é possível distinguir o campeonato ao título, que será disputado entre o Benfica (caso o valor investido seja superior ao aqui apresentado) e o Porto, assim como o campeonato da Liga dos Campeões, a disputar entre o Sporting e o Braga, com uma muito clara vantagem para os de Alvalade. Isto é, tendo em conta os orçamentos destes quatro clubes tanto em termos de valores absolutos, como em termos de diferenças entre si, qualquer classificação final que não corresponda a ter o Porto em primeiro, o Benfica em segundo, o Sporting em terceiro e o Braga em quarto terá de ser entendida como surpreendente.

Abaixo do Braga, temos a luta pela Liga Europa que inclui o Marítimo (5,5 milhões), o Vitória de Guimarães (5,5 milhões) e o Nacional da Madeira (4 milhões), com o Gil Vicente (3,6 milhões), a Académica (3,5 milhões), o Paços de Ferreira (3,5 milhões) e o Rio Ave (3,4 milhões) à espreita, mas certamente mais concentrados na disputa de um campeonato tranquilo. Por fim, surgem os principais candidatos à despromoção: Estoril (2.5 milhões), Moreirense (2,5 milhões), Olhanense (2 milhões), Beira-Mar (1, 8 milhões) e Vitória de Setúbal (1,2 milhões).

É provável que esta classificação não corresponda à classificação final, pois há vários factores a ter em consideração (a começar pela capacidade em cumprir o orçamento, como ficou claro no caso da União de Leiria na época passada) e também porque, felizmente, o futebol não é uma ciência exata. Contudo, os orçamentos constituem barômetros importantes para se poder medir o real sucesso ou fracasso de uma época. Se um clube que investiu cinco milhões de euros descer de divisão terá certamente muito mais a explicar aos seus adeptos do que um clube que tenha investido pouco mais de um milhão.

Por exemplo, no ano passado, o Porto e o Benfica ficaram nos lugares correspondentes ao seu investimento. Ao ficar em terceiro, o Braga ficou à frente de um clube (Sporting) com mais do dobro do seu orçamento (17 milhões contra 40 milhões), o que faz sobressair ainda mais o fracasso da época sportinguista (com a atenuante da meia-final da Liga Europa e a meia-atenuante da final da Taça de Portugal). No lado oposto da tabela classificativa, o Vitória de Setúbal e o Olhanense eram os dois grandes candidatos à descida, ambos com orçamentos inferiores a 1,5 milhões de euros. Também por isso, o 11º e o 8º posto que obtiveram respectivamente devem ser entendidos como claros sucessos desportivos. Eliminando estes dois clubes da luta pela descida de divisão, o Feirense assumia-se como um grande candidato, não só por ter o terceiro orçamento mais baixo (2 milhões) como pela sua inexperiência na Primeira Liga, onde participava pela primeira vez desde 1989-90. A sua descida de divisão não foi por isso surpreendente.

Há dois aspectos a concluir desta breve análise. Em primeiro lugar, que o mito dos três grande é, hoje em dia, isso mesmo, um mito. Com quase um terço do orçamento do atual campeão nacional, seria um pequeno milagre se o Sporting conseguisse vencer o título em 2013. O mesmo se pode dizer do Benfica, que pelo seu orçamento dificilmente conseguirá melhor que o segundo lugar. O atual sucesso desportivo do Porto tem hoje em dia uma explicação clara – o seu orçamento. Em segundo, que dos 16 clubes que competem esta época, só 11 conseguem apresentar orçamentos superiores a três milhões de euros, valor que pode ser entendido como essencial para a realização de um campeonato tranquilo. Este é um factor importante a ter em conta quando se fala no alargamento a 18 clubes. O nosso campeonato já é extraordinariamente desequilibrado: com 16 clubes a diferença entre o primeiro e o último situou-se na última época nos 56 pontos e na anterior nos 61. Por comparação, entre 71-72 e 86-87, período em que o nosso campeonato também contou com 16 equipas, nunca nenhum clube venceu o campeonato com mais de 40 pontos de diferença do último classificado. Acrescentar mais clubes sem qualquer tipo de nivelamento dos orçamentos só servirá para reduzir ainda mais a qualidade competitiva do campeonato, tornando-o (se já não é) uma versão mais pobre, mas simétrica, da liga espanhola, isto é, numa prova de obstáculos cada vez mais fácil para duas ou três equipas.

Nota: Números retirados do Guia Record 2011/2012 e 2012/2013.

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