Na passada segunda-feira, estive no Estádio Municipal de Aveiro para assistir à apresentação oficial do Beira-Mar aos associados. O adversário vinha de Espanha e chamava-se Valladolid.
A festa foi engraçada, havia algumas pessoas nas bancadas. Até adeptos do Valladolid lá estavam.
No meio das apresentações dos jogadores aveirenses, dou por mim a constatar que o clube tem apostado muito em jovens, mas, acima de tudo, em talentos portugueses. Nos últimos dois anos, o Beira-mar optou por valorizar mais o jogador nacional. Desviando um pouco o olhar, começo a pensar no Paços de Ferreira. É um clube igual. Na verdade, até começou mais cedo esta aposta em atletas lusos. O Moreirense FC é outro caso que se insere neste âmbito.
De seguida, como para me lembrar da verdadeira realidade da Liga portuguesa, olho para os primeiros seis classificados da última edição da Liga Zon Sagres. O FC Porto tem 9 brasileiros e 7 portugueses; o SL Benfica tem 6 brasileiros, 6 argentinos e 6 portugueses; o SC Braga consegue ter 12 portugueses, e 12 brasileiros; o Sporting CP tem 7 portugueses e 4 brasileiros; o CS Marítimo tem 9 portugueses e 9 brasileiros; o Vitória de Guimarães tem 9 portugueses e 8 brasileiros.
Em termos globais, os números são claros: os clubes portugueses nada querem com os jogadores do seu país. Perante tudo isto, questiono-me como foi possível vencer o Campeonato do Mundo de Sub-20 de 1989 na Arábia Saudita, o campeonato do Mundo de sub-20 de 1991 em Portugal, e, mais recentemente, como se conseguiu conquistar o 2º lugar no Mundial de sub-20 na Colômbia. Tudo isto parece uma obra do acaso.
Os clubes denominados grandes todos os anos apresentam reforços portugueses. Contudo, tirando jogadores como Moutinho, Rúben Amorim ou Rúben Micael, quantos conseguem vingar na primeira equipa desses clubes? O destino deles passa sempre por um empréstimo a uma equipa dita “menor”. Vão para lá, agarram as oportunidades, jogam com regularidade e depois são obrigados a regressar à base. Na pré-época seguinte, o filme começa de novo. De aspirantes a um lugar no plantel principal, passam a “moeda de troca” com outros clubes ou são, pura e simplesmente, emprestados. Em termos práticos, a evolução dos atletas está sempre a ser perturbada.
Peguemos no caso de Nélson Oliveira. Nos juniores do SL Benfica, era tido como uma enorme promessa. A equipa encarnada defendia que ele seria o futuro da equipa. No primeiro ano de sénior, foi emprestado ao Rio Ave. Rodou na equipa de Carlos Brito e foi aprendendo com o “velho” João Tomás. Nesse ano, fez 12 jogos oficiais. Não marcou qualquer golo. Na época seguinte, regressou à Luz e foi recambiado para o Paços de Ferreira. Voltou a ganhar experiência, desta vez, com Rui Vitória, que já tinha trabalhado na estrutura de formação do clube lisboeta. Atuou em 30 partidas oficiais e marcou 5 golos. O seu pecúlio aumentou, bem como a sua confiança. Em 2011/2012, o jogador acabou por ficar às ordens de Jorge Jesus. Foi aparecendo aos poucos. Marcou 3 golos em 22 jogos pelo SL Benfica. Esteve no Europeu. Foi utilizado com a camisola das quinas. Regressou das férias e viu o seu caminho novamente barrado por…estrangeiros: Cardozo, Rodrigo, Saviola e Mora têm a preferência de Jorge Jesus. A saída por empréstimo foi a solução que o jogador procurou.
Na mesma situação de Nélson Oliveira estiveram e estão jovens como Miguel Vítor, Roderick, David Simão, Adrien Silva, André Martins ou Sérgio Oliveira.
O contrassenso de tudo isto está no facto de os clubes “pedirem” a criação das equipas B, alegando que os seus jovens poderão ter mais minutos, ficando assim prontos a atuar na equipa principal sempre que necessário. Contudo, os clubes reforçam a equipa B com…estrangeiros. O espaço dos atletas portugueses reduz-se a nada.
A formação portuguesa está “pelas horas da morte” e ninguém faz nada. Os clubes estão completamente falidos, mas continuam a querer comprar atletas estrangeiros. Não tenho nada contra o jogador estrangeiro, critico veementemente a não aposta em atletas nacionais, porque sei que eles são bons.
Para que serve comprar um Diogo Valente, um Ivanildo, um Luisinho, um Hugo Vieira, se depois não os pomos a jogar? Nesse caso, a melhor solução será sempre não os contratar.
Por vezes, fico com a ideia de que se compram jovens portugueses aos clubes mais pequenos para impedir que eles criem projetos sólidos e consistentes. Está mais do que provado que os clubes do topo da classificação nada querem com esses jogadores.
Além disso, o adepto tem uma caraterística muito própria: se um jovem estrangeiro fracassa, diz-se que precisa de tempo, procura-se desculpar o (mau) investimento. Se se tratar de um atleta português, a paciência é muito menor e a pressão aumenta de tal forma, que a única solução é “encostar” o jovem.
Equipas como o Beira-mar, o Paços de Ferreira ou o Moreirense devem ser mais badaladas e elogiadas. Na prática, estão a prestar serviço público, formando jovens e homens portugueses de qualidade. Jogadores como Ricardo Dias, Joãozinho, Hélder Lopes, Caetano, Josué ou Rafael Lopes são o futuro da seleção nacional de Portugal.
Tantos foram os textos já escritos acerca deste assuntos. Todas as pessoas parecem ser unânimes: é preciso valorizar o jovem português, é preciso apostar nele. A minha sugestão é apenas uma: levar esta teoria para a prática.
O que é feito do SL Benfica maioritariamente português dos anos 60, do Sporting CP de Paulo Bento de 2005 a 2009, ou do FC Porto de Mourinho em 2004? Algo aconteceu para que todas as apostas em jovens portugueses caíssem por terra.
Não nos podemos espantar com o sucesso de outros países, como, por exemplo, Espanha e Alemanha. Estes dois países tiveram a capacidade necessária para perceberem que só os jovens poderiam sustentar a evolução do futebol. No caso espanhol, a Roja fala por si. Aqueles jogadores não jogam juntos desde ontem, fazem-no desde há anos. Muitos deles atuam no Barcelona, no Real Madrid, no Valência ou no Atlético de Bilbao. Vejamos este último clube: com um grande investimento na formação é possível evitar os gastos com jogadores estrangeiros. Não foi por acaso que surgiram agora jogadores como Javi Martínez, Muniain ou Fernando Llorente. Quando venderem algum destes craques, os dirigentes obterão lucros imensos, porque não foram obrigados a grandes investimentos. Valorizaram o que tinham.
O caso do Barcelona é, noutro prisma, a valorização do sucesso da formação. Aquela família vai recebendo reforços todos os anos, mas são os “homens da casa” que “continuam a dar nas vistas”. Não é preciso enumerar os êxitos deles.
A situação alemã é em tudo semelhante. Nos últimos anos, aquele país percebeu que era necessário renovar a grande potência que a Alemanha foi no passado. É verdade que não têm conseguido ganhar, mas praticam um futebol maravilhoso. Têm estado presentes nos jogos decisivos.
O maior exemplo de aposta na juventude é o Borussia Dortmund. Da sua formação já saíram craques como: Schmelzer, Grosskreutz, Götze ou Reus. Além destes, o campeão alemão teve uma boa capacidade de formação e reforçou-se com jovens alemães talentosos que foram baratos, mas que renderão imenso dinheiro ao clube: Leitner, Gündogan, Leonardo Bittencourt ou Sven Bender.
Este é o maior exemplo da valorização dos jovens. Trabalhá-los é muito mais produtivo do que comprar jovens noutros país. Quando cá chegam, nada sabem do clube, nada sentem pelo clube. Além disso, a barreira linguística é, muitas das vezes, difícil de ultrapassar.
Em alturas tão complicadas financeiramente como esta, o ideal é aproveitar os exemplos do Barcelona, do Ajax, do Dortmund ou do Montpellier. Excetuando o Barcelona, em 2011/2012, todas as outras equipas foram campeãs dos seus países. Alguma (para não dizer toda) influência terão tido os jovens.
Por último, uma nota de culpa para a Federação Portuguesa de Futebol e para a Liga portuguesa de Clubes, porque, se afirmam constantemente que é necessário valorizar os atletas portugueses, têm que criar medidas para isso. Uma delas seria a limitação de jogadores estrangeiros nos planteis portugueses. A outra seria a obrigatoriedade de 6 jogadores portugueses na equipa titular. Uma terceira medida poderia ser a imposição de, pelo menos, 3 jogadores formados no clube na equipa titular.
Avançar com estas ações implica pôr em causa alguns “lobbies”, mas isso não será nada comparado com o momento em que percebermos que a nossa seleção nacional será composta por jogadores estrangeiros.
Além disso, a situação financeira dos clubes ia agradecer, mesmo que a parte desportiva tivesse maus resultados no início.
O Dortmund precisou de estar pertíssimo da falência para ser campeão alemão duas vezes seguidas com um plantel praticamente todo jovem. Neste momento, são 6 os jogadores presentes na seleção alemã. Isso era impensável há uns anos. Com esta aposta, o Dortmund ganhou patrocinadores, recuperou, apostou em jovens e tornou-se no maior desafiador do Bayern de Munique, que fez muito do seu sucesso com base nos jogadores alemães. No Euro 2012, a Alemanha tinha 8 jogadores do Bayern.
Cá em Portugal, Beira-Mar e Vitória de Guimarães precisaram de estar perto do abismo para mudarem a sua forma de pensamento e apostarem em jovens.
Dois exemplos a seguir.
























