Como ponto prévio devo escrever que neste caso move-me uma questão da justiça e da crítica que Carlos Queiroz tem sido alvo.
Carlos Queiroz é competente, íntegro e outros adjectivos poderia atribuir-lhe como terá defeitos próprios de qualquer ser humano.
Convém iniciar com um pequeno resumo sobre a participação no Mundial de África do Sul. Ainda antes da partida para terras africanas, a crítica (negativa, do chamado “bota abaixo”) traçava o prognóstico que Portugal faria péssima figura e não alcançava a segunda fase da prova. Alguns desses críticos (na sua grande parte) vieram após o jogo inaugural ante a Costa do Marfim, tecer críticas pela forma pouco “ambiciosa” com que Portugal iniciava a sua participação no Mundial, pouco agressivo no ataque foi a crítica mais lida. Ao segundo jogo, Portugal goleia a Coreia do Norte (a maior goleada de Portugal em fases finais e uma das maiores de sempre) os críticos emudeceram…. Ao terceiro jogo, frente ao Brasil, regressaram algumas críticas, ténues, Portugal não atacou o que devia. Com o empate frente aos brasileiros Portugal qualificava-se para a segunda fase e os críticos perderam as apostas. A sorte (ou a falta dela) determina que Portugal defrontará a Espanha nos oitavos de final, a campeã europeia. Portugal perde por 1-0 com um golo irregular.
Villa não fez apenas vibrar a Espanha, despertou todos os críticos, incluindo os adormecidos pelos prognósticos agoirentos. Afinal, diziam, Portugal teve uma prestação miserável, dois empates e uma vitória com uma fraca selecção.
Acabava a participação lusa no Mundial e inicia-se o processo mais vil e cobarde, o ataque personificado única e exclusivamente em Carlos Queiroz. Portugal podia ter sido mais audaz frente à Espanha, podia, também não gostei de ver Hugo Almeida ser substituído. Mas Portugal não passou a ser a pior selecção dos últimos tempos como li, o facto da Espanha ter sido a campeã mundial não atenuou a crítica, mas se o mesmo jogo tivesse sido jogado na meia final ou mesmo na final o cenário seria outro (ou não porque haveria sempre alguém que criticasse porque o seleccionador é Carlos Queiroz).
Mas o ataque a Carlos Queiroz a que me refiro é a sucessão de suspeições e processos disciplinares. À parte dos fait-divers de Cristiano Ronaldo e companhia, é conhecido um episódio ocorrido no dia 16 de Maio em que às 07.45h a equipa antidopagem entra no hotel de estágio, o médico da selecção informa Carlos Queiroz e este, como teve oportunidade de explicar na entrevista à SIC, tenta que o controlo aguarde uns minutos até os jogadores acordarem. Explicou que na véspera tinham tido trabalho intenso e os atletas tinham hora de despertar para mais tarde. Segundo disse à SIC, no momento em que se dirige à recepção do hotel constata que a equipa antidopagem já se dirige aos quartos dos jogadores para os acordar. Perante a insistência e sem que o ouvissem, usou a expressão que é do conhecimento público, não o fez directamente ao visado nem sequer a nenhum dos membros da equipa anti doping, mas em tom de desabafo a um colaborador seu. Mas foi ouvido.
Carlos Queiroz admitiu o excesso de linguagem e lamentou-o, mas justificou porque motivo ficou alterado. Embora não se possa aceitar o vernáculo, Queiroz não deixa de ter razão, na minha opinião, claro. Porque tinha de ser feito um controlo anti doping àquela hora? Não podiam aguardar a meia-hora que o técnico pediu? Controlo surpresa não é argumento, tanto o era às 7.45h como às 9.00h, ou será que os jogadores teriam provas de doping nos quartos e teriam tempo para se livrarem dessas substâncias? Não tinham porque o controlo foi realizado quando quiseram.
É de controlo antidoping no futebol que está em causa, não é no ciclismo onde se usa e abusa de substâncias proibidas.
Pelo insulto, Carlos Queiroz foi punido pelo Conselho de Justiça da FPF (um mês de suspensão e mil euros de multa). Quem enviou o processo para o CD da FPF foi a Autoridade Antidopagem de Portugal, já depois de ter terminado o Mundial. Ao fazê-lo, incumbui o Conselho de Disciplina de “julgar” o comportamento do seleccionador nacional. O CD da FPF aplica a pena referida, mas a ADoP (entidade governamental) queria mais e decide avocar o processo. Embora seja uma prerrogativa que dispõe fê-lo única e exclusivamente para poder punir Carlos Queiroz numa pena superior e assim Carlos Queiroz é punido por um alegado comportamento pela segunda vez tendo sido absolvido pelo Conselho de Disciplina. Como será que a ADoP vai considerar incompetente a decisão do Conselho de Justiça da FPF e a sua como correcta? Houve perturbação pelo Professor no controlo antidoping? Dizem que não, salvo um médico ter dito que ficou nervoso e não fez o controlo a um dos parâmetros, seria incompetência profissional do médico ou sono?
Se a ADoP se considera capaz de analisar e aplicar a sanção porque motivo não o fez sem a intervenção da FPF? Não o fazendo por si mas remetendo ao Conselho de Disciplina “entregou” o processo àquele órgão. Assim sendo, teria (ou deveria) ter aceite a decisão.
É assim que funciona o Estado de Direito, sendo um dos princípios basilares a impossibilidade de alguém ser julgado duas (ou mais) vezes sobre o mesmo caso. A ADoP ignora em absoluto este princípio constitucional. Imaginemos que alguém pode ser julgado em dois tribunais distintos (em direito é possível, não é meramente académico), se alguém perde o processo nesse tribunal não pode interpor nova acção no outro tribunal que embora competente para julgar, está impedido de o fazer pelo facto de existir uma decisão anterior sobre o mesmo caso.
Carlos Queiroz explicou o sucedido e a sua posição na entrevista a Rodrigo Guedes de Carvalho na SIC.
Tal como disse o Professor Carlos Queiroz não se trata de dinheiro mas de uma questão de honra e dignidade quer enquanto profissional quer como cidadão. Está no seu direito como estaria qualquer cidadão e Carlos Queiroz irá até às últimas consequências, outra alternativa não lhe foi dada.
Apoio incondicionalmente a posição de Carlos Queiroz, sendo um caso de justiça que se faça justiça e não ataques pessoais mesquinhos.
O Sr. Secretário de Estado do Desporto, Dr. Laurentino Dias também tem a sua quota de responsabilidade, falou quando devia estar calado mas em Portugal há esta mania de falar de casos sobre os quais ainda não existe qualquer decisão, foi o que fez o Secretário de Estado ao afirmar, sem que houvesse qualquer decisão, que no processo constavam actos muito graves e mais não disse, naturalmente que face às circunstâncias seria o comportamento de Carlos Queiroz a que se referia. Para além disso, o Dr. Laurentino Dias recusou falar com o seleccionador português.
A selecção portuguesa começa na próxima sexta-feira a fase de qualificação para o europeu de 2012, com o seleccionador castigado, para já pelo CD da FPF, seguidamente será pela decisão que se sabe pelos órgãos de comunicação social mas o visado desconhece da ADoP. Como Carlos Queiroz seguirá na sua defesa o processo não finda, prosseguirá noutras instâncias, sendo o Tribunal arbitral do desporto (TAS) a entidade competente. Ou seja, o processo vai ser longo…
Enquanto escrevia, verifiquei através da Lusa que Carlos Queiroz já foi notificado e que a ADoP vai revelar os fundamentos da sua decisão amanhã a partir das 11.00h (não seria melhor às 8.00h?)
ADENDA: Tendo em consideração os desenvolvimentos do dia é pertinente a adenda:
A ADoP considera que Carlos Queiroz perturbou o controlo antidopagem à selecção e critica duramente a decisão do Conselho de Disciplina da FPF. Segundo a ADoP, o ”CD não enquadrou correctamente o comportamento do seleccionador nacional Carlos Queiroz e, igualmente, não apreciou devidamente a prova produzida”.
O acórdão dá como não provado o principal argumento de Carlos Queiroz: a hora matinal. Não foi dado como provado que Carlos Queiroz ou Henrique Jones “tenham em algum momento falado aos médicos da ADoP sobre a necessidade de os jogadores despertarem nesse dia mais tarde” e acrescenta que “se lhes tivesse sido pedido para esperar mais um pouco para fazer o controlo, teriam esperado…”. Quem está a mentir? Ponto crucial.
Entretanto o Secretário de Estado dr. Laurentino Dias em conferência de impresa vem a público, como “ameaçara” justificar e apoiar a decisão da ADoP referindo que não se trata de “justiça governamental”, acusando Carlos Queiroz ”de procurar desviar as atenções do fundamental, saber se houve ou não perturbação da acção de controlo antidoping”. Para além disso, “pede coragem à Federação para tomar decisões”, num claro pedido de demissão de Carlos Queiroz.
O seleccionador pode recorrer da decisão da ADoP para o Tribunal Arbitral do Desporto, o que fará, pelo que o dr. Laurentino Dias não deveria, a meu ver, fazer estas declarações em público, pelo menos.
O ingrólio vai manter-se mas desde já se constacta que alguém mente e que a ADoP considera a decisão do Conselho de Justiça da FPF incompetente, podendo concluir-se que o pedido de responsabilidades que o Secretário de Estado refere não se limitarão ao seleccionador mas também aos orgãos da FPF, em especial do Conselho Disciplina.
E assim vai o nosso triste futebol português…































Isto já cheira mal, se querem correr com o Queiros, porque nao sao directos e claros ????…….parece uma telenovela, mas de um Pais de 3ª Mundo.
Particularmente, não sou um adepto dos métodos de CQ. É um treimador que troca com muita infelicidade o que é ter uma equipa ofensiva sem saber defender por uma equipa defensiva sem saber atacar.
Neste caso que nõa é por acaso, o primeiro castigo deveria ser dado á FPF e o segundo por consequência da ruina da FPF Carlos Queirós deveria também sair.
Se não é um caso de dinheiro, então, onde está a honra e a dignidade.
A honra e dignidade é pessoal, não se compra nem se vende. Se Carlos Queiroz se demitisse estava a admitir como correcta a decisão da ADoP.
Se a decisão da ADoP é a correcta, então não é apenas Carlos Queiroz que tem de sair mas também os membros do Conselho de Disciplina da FPF e a própria Federação.
No caso contrário, “rolam mais cabeças”, os membros da ADoP, todos, incluindo Luis Horta, o Secretário de Estado da Juventude e Desporto, o presidente do Instituto do Desporto.
Estamos num caso gravíssimo mas parece que nada se passa, o que ainda é mais grave….